O que Taxas de Juros Negativas Podem Significar para o Bitcoin?

O que Taxas de Juros Negativas Podem Significar para o Bitcoin?

Rodrigo Lima  | 29.07.2019 14:45

“Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo.” É assim, em tom profético, que Marx e Engels abrem o Manifesto Comunista - alguém há de negar que o século XX foi assombrado pelo comunismo? Divago um pouco sobre o tema do artigo, mas a verdade é que há hoje, no século XXI outro espectro que ronda não apenas a Europa, mas as principais economias do planeta: o espectro das taxas de juros negativas.

Se para nós brasileiros, acostumados a lidar com taxas de juros altíssimas, taxas de juros negativas parecem uma invenção fantasiosa, para alguns países não há nada de espectral: os juros negativos são uma realidade concreta. Suíça, Dinamarca, Suécia, Japão e Israel já são países que aplicam taxas de juros negativas há alguns anos. Até mesmo a Alemanha recentemente emitiu títulos de dez anos com taxas negativas.

As causas para esse fenômeno podem ser várias, não havendo consenso entre os economistas para explicar o que geraria as taxas negativas. Se para os ortodoxos os juros negativos têm origem na alta injeção de liquidez através de políticas monetárias expansionistas, alguns heterodoxos apontam para fatores como o envelhecimento populacional: com menos descendentes para lhes ajudarem na terceira idade, os idosos demandariam a segurança de títulos públicos para garantir sua aposentadoria, ainda que a taxas irrisórias. Os bancos centrais, por sua vez, enfrentando uma população que só investe e é avessa a consumo, se veriam obrigados a injetar liquidez como tentativa de estimular a economia, reforçando a tendência de queda dos juros e se aproximando de uma armadilha da liquidez keynesiana.

Se você acha que é loucura comprar títulos que tenham um rendimento negativo, não está de todo errado, mas também há um rationale que ajude a entender o lado dos compradores: o banco central funciona como um custodiante e o rendimento negativo funcionaria como uma taxa de custódia. Para nós, pessoas físicas, pode não fazer sentido, mas para grandes bancos com trilhões em custódia, o rationale pode ser válido.

Com um cenário de desaceleração global parecendo cada vez mais concreto, bancos centrais ao redor do mundo têm injetado doses cavalares de liquidez no mercado através de medidas como o quantitative easing, jogando as taxas de juros para valores nunca antes vistos. Mesmo os Estados Unidos estão com menos de 1% ao ano de juro real, enquanto o Brasil caminha para 2%, mínima histórica (os 6,5% da Selic de hoje já são um mínimo nominal) e, ao que tudo indica, ambos irão cortar ainda mais.

Toda a ciência econômica até hoje afirma haver um trade-off entre taxa de juros e inflação: quanto mais baixa a primeira, maior a segunda e vice-versa. Curiosamente, apesar de taxas de juros em mínimas históricas, a inflação parece estar sob controle ao redor do mundo, o que indica aos bancos centrais que as taxas de juros ainda possam passar por cortes ainda maiores. Uma teoria que pode explicar a baixa inflação é a metodologia para o seu cálculo: enquanto cestas de produtos de consumo parecem não ter sofrido grande alta, ativos produtivos e financeiros se encontram rompendo máximas históricas.

Gráfico Preço dos Ativos vs Inflação

Legenda: Crescimento de ativos de risco vs PIBs, salários, imóveis e commodities

Na verdade, isso é natural em cenários de juros baixos, por uma série de motivos. Em primeiro lugar, os custos do financiamento das empresas caem, podendo com isso expandir sua produção. Além disso, a baixa remuneração dos títulos públicos incentiva os investidores a correrem mais riscos, inflando o preço dos ativos financeiros. A alavancagem também é barateada e as empresas podem se aventurar no mercado financeiro, principalmente através da recompra de ações. Todos esses fatores contribuem para uma sobreprecificação dos ativos de risco.

Na verdade é possível inclusive que o Bitcoin já tenha tido seu preço inflacionado pelo excesso de liquidez no mercado, uma vez que até 2018 ele vinha sendo negociado como um ativo de risco. Se isso de fato for um dos motivos para a valorização do Bitcoin, novos cortes de juros ao longo do ano podem dar combustível para altas ainda maiores. Mais recentemente a correlação entre o ouro e o Bitcoin aumentou, reforçando a tese de que ele seria um ativo seguro e robusto a crises, mas pode ser que a prova dos nove esteja prestes a ocorrer.

Há alguns sinais de que uma crise mundial esteja iminente: juros baixos, ativos de risco em máximas históricas, inversão da curva de juros americana (que antecedeu todas as últimas recessões). Historicamente, crises econômicas costumam ocorrer em períodos de juros baixos, mas há sempre quem diga que dessa vez é diferente. Se a crise está próxima ou não é difícil dizer, mas o que aconteceria com o Bitcoin em um cenário de crise mundial?

No fim das contas, apesar das particularidades do Bitcoin, essa questão volta às teorias acerca do comportamento dos investidores em momentos de crise: ocorre um flight to quality ou um flight to liquidity? Muitos investidores defendem a tese de que em momentos de crise ocorreria um flight to quality, isso é uma fuga para a qualidade: investidores se dirigiriam a ativos de qualidade, sejam eles ações de companhias sólidas ou ativos como o ouro, por exemplo. Nesse cenário, caso o Bitcoin seja percebido como um ativo de qualidade, seu preço explodiria. Entretanto, caso seja visto como um ativo de risco, o preço do Bitcoin iria despencar.

Por outro lado, muitos investidores defendem a tese de que em momentos de crise ocorre um flight to liquidity: tendo de quitar dívidas e honrar pagamentos, os investidores correm para os ativos mais líquidos e mesmo ativos de qualidade caem. Apesar dessa hipótese não soar muito bem, sendo ligeiramente assustadora, ela conta com sustentação empírica:

Gráfico

Legenda: Ouro (amarelo) e S&P 500 (azul) ao longo do tempo. Fonte: Tradingview

Como podemos observar, no cataclisma da crise de 2008, mesmo o ouro caiu, acompanhando a bolsa americana. A grande diferença é a seguinte: enquanto o ouro recupera os níveis pré-crise em dois meses e então dispara, o S&P leva quase cinco anos para superar seus níveis anteriores. Em um cenário de fuga para a liquidez, é possível que o Bitcoin sofra uma grande desvalorização imediata. Entretanto, considerando que ele é um ativo com baixa correlação com os ativos tradicionais e vem sendo consistentemente propagandeado como um hedge contra o sistema financeiro, eu definitivamente não ficaria surpreso se o Bitcoin protagonizasse uma valorização exponencial assim que a poeira da crise baixar.

Rodrigo Lima

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Leonardo Ramos
Leonardo Ramos

Eita artigo com fortes tendência ao Bitcoin  ... (Leia Mais)

30.07.2019 12:01 GMT· Responder
Vando Nascimento
Vando Nascimento

Ótimo artigo. Faz-nos refletir sobre o atual cenário, inclusive doméstico.   ... (Leia Mais)

29.07.2019 23:37 GMT· 1 · Responder
Nemo Vox
Nemo Vox

Acho que há mais para ser levado em conta em relação ao ouro.Ele não é só uma “reserva” de valor ou algo similar, o ouro é muito usado em itens eletronicos (e ainda mais em telefonia) por conta das propriedades eletricas. Durante a crise o consumo cai e o uso dp ouro cai também. Não tem como prever o que acontecerá com o bitcoin se for para comparar com outros graficos.  ... (Leia Mais)

29.07.2019 22:08 GMT· Responder
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