Será Mesmo a Morte do CDI?

Será Mesmo a Morte do CDI?

Arnaldo Augusto Curvello  | 22.06.2020 16:05

Diversas vezes depois do Plano Real em 1994 ouvimos que o Brasil estava pronto para ter taxas de juros baixas que levariam o país à maturidade econômica financeira. Assim como na famosa peça do autor irlandês Samuel Beckett, nosso Godot nunca chegava.

Com a decisão do Banco Central de reduzir a taxa Selic para 2,25% ao ano e a possibilidade de novas quedas, podemos dizer que o dia chegou, infelizmente desacompanhado do cenário de maturidade que tanto almejávamos. A queda da taxa de juros é reflexo de mais uma crise econômica, que em função do coronavírus dragou o crescimento da economia mundial para níveis nunca vistos.

Sob a ótica do investidor, a primeira reação que nos vem à cabeça é que aplicar nosso dinheiro indexado ao CDI não renderá mais nada. Contudo, quando nos aprofundamos na análise, percebemos que nem tudo está perdido para o investidor que deseja continuar tendo uma rentabilidade interessante, sem se expor a riscos desproporcionais ao seu apetite.

A primeira e talvez mais importante análise que devemos fazer é diferenciar taxa de juros nominal e taxa de juros real. O CDI é uma remuneração nominal do capital. Atrelado a taxa Selic, que é definida pelo COPOM (Comitê de Política Monetária) e segue o modelo de metas de inflação para determiná-la. Simplificando bastante o raciocínio, quanto menor a inflação e a expectativa futura de inflação, menor a taxa Selic e consequentemente o CDI.

Fica fácil entender que, quando o CDI está baixo, obrigatoriamente a inflação, atual e esperada, está baixa. O IPCA, índice oficial de inflação, do mês de maio deve mostrar queda de 0,60% nos preços, e a pesquisa semanal do Banco Central prevê uma inflação anual de 1,59%.

Embora taxas de juros nominais elevadas como vivemos no passado nos deem a sensação de evolução rápida do patrimônio, parte dessa taxa está apenas corrigindo nosso capital pela inflação, ou seja, o que realmente importa é a taxa de juros real, que nada mais é que a taxa de juros nominal, menos a inflação verificada.

Em 2015, mesmo com o segundo CDI mais alto da série, tivemos uma taxa real de apenas 2,32%. Cabe aqui mais uma reflexão. Os investimentos no Brasil, salvo os produtos incentivados, pagam imposto de renda sobre o retorno nominal e não sobre o real.

Sendo assim, o juro real líquido de IR em 2015, quando o CDI foi 13,24%, foi de apenas 0,33% (2,32% - 1,99% de IR), quase o mesmo que o retorno líquido de IR de 0,31% projetado para 2020.

Em função do IR sobre aplicações financeiras, para um mesmo nível de juro real, é preferível termos CDI e inflação mais baixas.

Existem diversos ativos financeiros nos quais o retorno é indexado à inflação. A postura agressiva do Banco Central na queda da taxa Selic sugere que as projeções do mercado em relação à taxa de juro real no futuro tenham caído.

Mais uma vez focando a análise para uma visão de investidor, podemos dizer que mesmo com o CDI mais baixo, é possível comprar títulos com retornos reais melhores que antes da última queda. O mesmo movimento observado nos títulos públicos ocorreu no mercado de taxas de juros futuras pré-fixadas.

O mercado acredita que o preço justo do CDI de hoje até o fim de 2022 é de 4,30%. Isto quer dizer que se eu imagino que o CDI médio do período será mais alto que 4,30%, posso comprar os contratos futuros para travar esta taxa de juros caso o CDI suba. O contrário vale para quem acredita que o CDI médio será mais baixo.

Para finalizar a análise sobre o impacto da taxa de juros em nossos investimentos e principalmente os efeitos da queda do CDI, vale revisitarmos alguns conceitos. No mercado financeiro, o termo utilizado para definir o ganho adicional acima da taxa de juros básico da economia é chamado de alfa. Nós, gestores de carteiras, somos perseguidores incansáveis de alfa.

Durante anos, dado o histórico de CDI elevado, as carteiras e fundos eram medidos em percentual do CDI. Percentuais acima de 100% do CDI, geravam alfa positivo. Com a queda do CDI, temos feito o trabalho de alterar a remuneração dos ativos investidos por nós de percentual do CDI para CDI + alfa.

Temos ouvido diversos analistas de finanças pessoais enfatizarem que o investidor deve fugir do CDI. Esta análise nem sempre é verdade, uma vez que ativos que rendem CDI + taxa de juros podem ser bastante interessantes.

A demanda atual do mercado por liquidez tem propiciado alternativas muito boas de investimento em ativos com alfa elevado, algumas vezes acima de 5% ao ano.

Um ativo que rende CDI + 6% ao ano, por exemplo, renderá o juro real mais 6% ao ano. Se os analistas estiverem certos em suas previsões de CDI e inflação, uma carteira a 100% do CDI terá rendimento real de 0,65% ao ano. Já uma carteira com alfa de 6%, ou seja, que rende CDI + 6% ao ano será uma carteira que rende 6,65% de juro real, quase 10 vezes mais que uma carteira que rende 100% do CDI.

Resumindo alguns conceitos discutidos até aqui, entendemos que é importante sempre ter em mente que nosso patrimônio vai subir em função do juro real líquido de IR. Hoje, embora o CDI seja baixo, a curva futura não cedeu na mesma proporção e o mercado de crédito continua praticando alfas elevados. Cada vez mais é importante entender que, mesmo aplicando em CDI, o que importa é o alfa gerado pela aplicação.

Arnaldo Augusto Curvello

Artigos Relacionados

Últimos comentários

Adicionar comentário
Aguarde um minuto antes de tentar comentar novamente.
Anderson De Almeida
Anderson De Almeida

Adorei o texto, assunto legal e muito bem escrito no quesito português, impecável.  ... (Leia Mais)

16.07.2020 19:45 GMT· Responder
faribei ribeiro
faribei ribeiro

O CDI já não existe faz muito tempo. Desde a criação do Sistema de Pagamentos Brasileiro, SPB. É apenas um zé com zé dos bancos, para ganharem alguma coisa sobre a massa de seus clientes. Como pode ser inferior ao Selic, que tem lastro em títulos públicos, melhor risco do país, se o CDI não tem lastro algum?  ... (Leia Mais)

23.06.2020 15:52 GMT· Responder
Hermes Maschio
Hermes Maschio

Pessoal mais alguma dica de investimentos com bom alfa?!?  ... (Leia Mais)

23.06.2020 04:44 GMT· 2 · Responder
Renato Costa
Renato Costa

Patrimônio não cresce com CDI, exceto se tu tiver algumas dezenas de centenas de reais para investir. Do contrário alocar dinheiro ao CDI é apenas fazer um fundo de reserva emergencial.  ... (Leia Mais)

23.06.2020 01:32 GMT· Responder
Joao Guilherme Zimmermann
Joao Guilherme Zimmermann

Deixa na poupança então te pagando 1,58% a.a. Depois de agosto, deve cair pra 1,35%. Ou debaixo do colchão. Já que ninguém quer Bradesco eu só compro BBDC3 a preço em dólar de 12 anos atrás...100% comprado....FUI...Bolsa a 105mil pontos até 10.07.  ... (Leia Mais)

23.06.2020 00:58 GMT· Responder
Moises Bastos
Moises Bastos

Se alguém souber de um produto de renda fixa que pague 100% do CDI + 6% a.a, me avise....rsrss. O máximo que consigo é 110% do CDI e olhe lá.melhor ir par Fiis, fazer o que.  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:55 GMT· 8 · Responder
Arthur Domingues
Arthur Domingues

Abordagem bem realista, linguagem acessível e boa visão do mercado futuro. Adorei o artigo!  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:51 GMT· Responder
Roberto Rizzato
Roberto Rizzato

Prudente e um porto seguro sempre (CDI), para flutuações do mercado. Parabéns.  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:44 GMT· Responder
Marcos Nobre
Marcos Nobre

Excelente texto e numa excelente linguagem!  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:26 GMT· Responder
Ademir Furieri
Ademir Furieri

Gente! Cada dia mais desde o dia 10 de março, estou vendo que esses analistas ou são doidos ou tentam nos fazer de trouxas. Onde já se viu aplicar em renda de 2,5 a 6% ao ano se qualquer um que comprar qualquer ação conhecida (mesmo hoje) tem no minimo 15% de lucro, e se tiver coragem segura de um ano a sete anos pode inclusive dobrar muito mais  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:19 GMT· 2 · Responder
Cíntia Sonego
Cíntia Sonego

Quando vou no mercado vejo uma inflação muito maior, por isso na teoria ok. Mas na prática não é bem assim...  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:09 GMT· Responder
Leandro Prass
Leandro Prass

ótimo texto parabéns 👏👏👏  ... (Leia Mais)

22.06.2020 23:08 GMT· Responder
Carlos Eduardo Von Randow Baijão Junior
Carlos Eduardo Von Randow Baijão Junior

abraços. Excelente.  ... (Leia Mais)

22.06.2020 22:55 GMT· Responder
Caroline Nahas
Caroline Nahas

Muito bom !!! Parabens Bla bla bls so se for pra quem nso entendeu sua analise !!  ... (Leia Mais)

22.06.2020 22:48 GMT· Responder
José Carlos Ferreira
José Carlos Ferreira

bla bla bla bla bla   ... (Leia Mais)

22.06.2020 22:28 GMT· 1 · Responder
LEANDRO DIETER
LEANDRO DIETER

Muito Bem! Parabéns pelo artigo. Muitos estão apressadamente correndo para investimentos de risco (boa parte das vezes excedendo seu apetite a risco) por conta de que agora a Renda Fixa teria acabado. O texto recoloca os bons fundamentos que não podemos nunca abandonar.  ... (Leia Mais)

22.06.2020 19:48 GMT· Responder
Discussão
Escrever uma resposta...
Aguarde um minuto antes de tentar comentar novamente.

Negociar instrumentos financeiros e/ou criptomoedas envolve riscos elevados, inclusive o risco de perder parte ou todo o valor do investimento, e pode não ser algo indicado e apropriado a todos os investidores. Os preços das criptomoedas são extremamente voláteis e podem ser afetados por fatores externos, como eventos financeiros, regulatórios ou políticos. Negociar com margem aumenta os riscos financeiros.
Antes de decidir operar e negociar instrumentos financeiros ou criptomoedas, você deve se informar completamente sobre os riscos e custos associados a operações e negociações nos mercados financeiros, considerar cuidadosamente seus objetivos de investimento, nível de experiência e apetite de risco; além disso, recomenda-se procurar orientação e conselhos profissionais quando necessário.
A Fusion Media gostaria de lembrar que os dados contidos neste site não são necessariamente precisos ou atualizados em tempo real. Os dados e preços disponíveis no site não são necessariamente fornecidos por qualquer mercado ou bolsa de valores, mas sim por market makers e, por isso, os preços podem não ser exatos e podem diferir dos preços reais em qualquer mercado, o que significa que são inapropriados para fins de uso em negociações e operações financeiras. A Fusion Media e quaisquer outros colaboradores/partes fornecedoras de conteúdo não são responsáveis por quaisquer perdas e danos financeiros ou em negociações sofridas como resultado da utilização das informações contidas neste site.
É proibido utilizar, armazenar, reproduzir, exibir, modificar, transmitir ou distribuir os dados contidos neste site sem permissão explícita prévia por escrito da Fusion Media e/ou de colaboradores/partes fornecedoras de conteúdo. Todos os direitos de propriedade intelectual são reservados aos colaboradores/partes fornecedoras de conteúdo e/ou bolsas de valores que fornecem os dados contidos neste site.
A Fusion Media pode ser compensada pelos anunciantes que aparecem no site com base na interação dos usuários do site com os anúncios publicitários ou entidades anunciantes.

English (USA) English (UK) English (India) English (Canada) English (Australia) English (South Africa) English (Philippines) English (Nigeria) Deutsch Español (España) Español (México) Français Italiano Nederlands Português (Portugal) Polski Русский Türkçe ‏العربية‏ Ελληνικά Svenska Suomi עברית 日本語 한국어 简体中文 繁體中文 Bahasa Indonesia Bahasa Melayu ไทย Tiếng Việt हिंदी
Sair
Tem certeza de que deseja sair?
NãoSim
CancelarSim
Salvando Alterações

+

Baixe o aplicativo do Investing.com

Receba gratuitamente cotações, gráficos e alertas em tempo real sobre ações, índices, moedas, commodities e títulos. Acesse gratuitamente as melhores análises e previsões técnicas.

Investing.com é melhor no App!

Mais conteúdo, cotações e gráficos mais rápidos e uma experiência melhor estão disponíveis apenas no aplicativo.